Eis minha poesia. Toma, agora é tua!

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Irremediável


Contra o único mal irremediável
Os meus versos, minha tristeza e minha dor
Nessa luta de viver sem teu amor
Eu já passo a viver o inacreditável

Eu lutei contra o inimigo incansável
E vivi meus dias de pavor
Apesar de tudo, sem rancor
Do arquiteto que se diz inexorável

Eu te vejo sorrindo no meu sonho
Me abraçando como quem chega de viagem
Me dizendo: “meu filho, que saudade!”

Te abraço com meu jeito tão risonho
Como quem tenta congelar essa imagem —
Já não sei dizer se foi verdade.

Matheus Matos

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Elogio à equipe da UTI 1 do Hospital Universitário Professor Edgar Santos.


 
Há pessoas que passam por nossas vidas, e a gente nem percebe o quanto elas serão importantes. Há momentos pelos quais a gente passa na vida e para os quais nunca estará pronto. Os encontros, às vezes, servem para nos ensinar o valor das conexões, para nos mostrar o quanto somos humanos e frágeis, para mostrar que não estamos sós neste mundo de vastidão. Encontrar pessoas como quem cultiva o alimento da alma, talvez esse seja o propósito.

Não sei por quê. Talvez eu tenha me conectado com todos vocês durante os dias em que fiquei aí porque minha companheira, o amor da minha vida, é essa pessoa do cuidado, e eu vejo o quanto isso é importante. Eu tentei dar importância às atividades de vocês, tentei aprender, acolher suas dores, porque todos nós as temos, e ser abrigo quando o abrigo também me era oferecido.

Talvez por isso eu tenha me sentido tão em casa quando estive aí, na UTI 1 do Hospital Universitário Professor Edgar Santos.

Eu sei que todos nós temos nossas virtudes e nossos defeitos. Mas, em um ambiente em que um erro pode custar uma vida, admiro muito o empenho de todos vocês em não errar. Imagino como deve ser difícil ver vidas passarem por entre os dedos tantas vezes, como quem tenta dar forma à água com as mãos. Muitas vezes, a vida simplesmente quer escorrer. E me admira a capacidade que vocês precisam ter de se recompor. Imagino também o quanto deve ser difícil tentar não se conectar demais com as pessoas para evitar sofrer tanto. Afinal, não somos robôs, e muitos sentimentos embaralhados podem nos adoecer.

Eu fiz um estágio de vida com todos vocês. Com começo, meio e fim. Um fim amargo, eu sei. Mas vocês me ajudaram a atravessar essas etapas de uma maneira muito mais leve. E eu só queria agradecer a todo mundo, de todas as esferas do funcionamento da UTI. Quero registrar o quanto fui recebido por pessoas humanas e o quanto recebi olhares e palavras de afago. É difícil, para um poeta, professor e cientista, viver tantas emoções, conviver com tantas informações e ver tanto conhecimento sendo trocado sem se sobrecarregar. Vocês fizeram dessa passagem uma viagem de bem-estar, brincadeiras e tranquilidade. Eu, sinceramente, não tenho palavras para agradecer. E, se houve algo bom nessa experiência, esse algo bom foram vocês.

Eu conheci mineiras, piauienses/maranhenses, cearenses, baianos, brasileiros. Conheci o lado humano de vocês justamente no momento mais frágil que alguém pode viver. Admirava toda a organização, a sincronia e a colaboração entre vocês. Eu sei que isso faz parte da rotina e que vocês precisam dominar tudo isso para exercer esse ofício, mas não é apenas sobre isso.

É sobre competências complementares e humanizadas. É sobre olhar para o paciente com carinho, mesmo depois de plantões nada humanos. É sobre a forma como olharam para minha mãe e viram nela não apenas a minha mãe, mas também seus próprios filhos, seu marido, sua família. É projetar sobre si a dor do outro para tentar diminuir o sofrimento dele.

Eu não sei como agradecer. Chocolates não seriam capazes. Minhas palavras são incapazes. Eu não tenho poesia para este momento. Aqui, sou apenas carne e ossos, sem fantasia, com os olhos de quem perdeu a pessoa mais importante da vida, mas que carrega uma dívida de gratidão com esta equipe singular.

É muito provável que eu não tenha acompanhado todos os rodízios, embora tenha ficado mais de duas semanas com vocês. É muito provável que eu não consiga me lembrar do nome de todos que passaram por mim. Eu tenho esse péssimo costume de esquecer nomes, e agora vocês entendem por que eu perguntava tantas vezes os nomes de vocês.

Obrigado às meninas da recepção. Obrigado pelos sorrisos de sempre quando eu chegava. O pessoal da limpeza também sempre me recebia com carinho, principalmente a senhora que esteve lá comigo mais vezes. Ela sempre me via e deseja melhoras pra minha mãe. Admirava o carinho dos filhos com a mãe, como se fosse a mãe que recebesse carinho. Saiba que suas palavras sempre foram recebidas com muita esperança e afago.

Me lembro da gigante Érica, que, em todos os rodízios em que ficou no leito da minha mãe, teve uma paciência, uma atenção e um carinho sem igual com ela. Além, é claro, de estar com o treino em dia para os desafios do levantamento de peso da UTI. Não me esqueço do carinho sem igual de Heloísa com minha mãe e de seu semblante abatido com a partida dela. Helô, obrigado por tudo. Eu lhe disse isso. Você fez tudo ser mais leve.

Também não poderia deixar de registrar um momento tão bonito de comunhão entre Vânia e minha mãe. Obrigado, Vânia, pelas palavras de conforto. Tenho certeza de que ela se sentiu mais forte para partir depois da conversa de vocês. Eu pude ver uma mudança nítida no semblante de minha mãe, um semblante de paz, quando ela descobriu que estava sendo cuidada por uma irmã de sua igreja. Saiba que o velório dela foi na Igreja Adventista e que fizeram também um momento mais tranquilo e bonito, apesar de tudo.

Lu, Kel, Alicia e Robério: obrigado por tudo. Ver vocês cuidando dela aliviava o meu dia. Era a certeza de que eu poderia ficar em paz. Obrigado pelas conversas, pelos sorrisos e por atenderem aos meus insistentes pedidos. Obrigado por buscarem as gazes sempre que eu pedia. Tenham certeza de que vocês são profissionais competentes e de que a função de vocês é, sem dúvida, uma das mais importantes nesse ambiente. Vocês são o verdadeiro cuidado e o verdadeiro contato com os pacientes. No momento de maior vulnerabilidade, vocês carregam a vida deles nas mãos. Parabéns por exercerem uma profissão tão digna.

Minhas amigas e meus amigos, enfermeiras e enfermeiros: Luciana, a Lu; Ceci; Alexandre; Sidney; Érica; Laís; Carlos Eduardo; Manu; e Davi. Vocês são anjos. Anjos que carregam o fardo do cuidado. São portadores da cura. Nunca se esqueçam disso. É por meio de vocês que o paciente é guiado para a melhora e para a cura. E isso é tão bonito. É um poder tremendo. Obrigado por tudo. Obrigado por me tratarem tão bem e, acima de tudo, por me aceitarem. Eu sei que não fui tão simples. Com o tempo, os sorrisos tornaram tudo mais fácil. Obrigado pela forma sem igual que trataram minha mãe. 

À equipe de fisioterapia, estendo meus agradecimentos. Foi ali que eu vi que fisioterapia não é só sobre reabilitação depois de se quebrar o pé. É também uma reabilitação de vida. É também a manutenção da vida por meio dos aparelhos. Muitas vezes, é também alegria. Obrigado a todos os fisioterapeutas que passaram pelo leito da minha mãe. Entre aqueles de cujos nomes me lembro, agradeço à Jeane pelos atendimentos rápidos. Obrigado, Priscila, e obrigado às suas meninas e aos seus meninos superpoderosos. Vocês fizeram de um momento tão difícil um momento de sorrisos. Obrigado pelas músicas, Priscila. Obrigado pelo cuidado próximo. Obrigado pelo abraço no momento mais triste.

Há algo muito bonito em um hospital universitário: o ensino. Como professor, eu não poderia deixar de registrar todo o aspecto formativo da UTI, em todas as áreas: para enfermeiros, médicos, técnicos, profissionais administrativos, para todos. Parabéns aos professores que carregam essa missão. Parabéns à equipe médica. Parabéns ao SUS e às universidades públicas. Que todos nós possamos usufruir disso como cidadãos, tanto aqueles que aprendem quanto aqueles que recebem o cuidado. O SUS é uma das armas mais bonitas no combate à desigualdade neste país.

Não poderia deixar de registrar o atendimento da equipe médica: a voz calma e doce de Michele, a tranquilidade e a paz de André, as analogias e brincadeiras de Lício, a amizade e a curiosidade de Simone, a poesia e a música de Leonardo. Muitas vezes, vocês são obrigados a transmitir tranquilidade depois de um dia pesado de trabalho e têm a árdua missão de dar notícias boas ou ruins, sobretudo as ruins. Precisam se lembrar dos detalhes de vários pacientes, suportar perguntas sem limites e enfrentar questões de respostas impossíveis. Obrigado pela paciência. Obrigado por respeitarem nossas ânsias. Obrigado, sobretudo, pela conexão humana.

Obrigado, Leo, por me apresentar sua poesia, sua música e por trocar figurinhas comigo. Obrigado, Simone, pelas discussões científicas, por me ouvir e por dar atenção aos meus ruídos. Espero que vocês nunca deixem esse lado humano da medicina acabar. Desejo também todo o sucesso aos residentes, Will e Ana Luísa, e aos estudantes de medicina com quem tive contato, Victor e Gibran. Que seus supervisores ensinem a vocês, sobretudo, a olhar nos olhos de quem atendem, da mesma forma como olharam nos meus e nos de minha família.

Obrigado por tudo, pessoal.


Matheus Matos

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Para Minha Mãe




O dia da tua partida amanheceu triste. O dia chorou com tua partida, minha mãe. Eu te amei tanto, sempre. Obrigado por tudo, meu amor. Você foi o meu maior presente nesta vida, e eu vou te amar para sempre. De certa forma, eu me preparei a vida toda para esse momento. Eu tentei cuidar de ti sempre, porque sabia que esse dia chegaria. Só não sabia que seria tão cedo. Eu sempre admirei a tua forma de amar, o teu jeito incondicional de ajudar os outros. A senhora deu tanto nesta vida, minha mãe. Só por isso, merecia ter vivido mais. A senhora cuidava da sua família e sempre foi intensa. Queria seus netos contigo, queria tua família contigo e nunca largou a mão de ninguém, mesmo com os conflitos normais que uma família pode ter. Você amou demais. Talvez por isso teu coração tenha sido tão forte. Cuidou de sobrinhos como filhos, cuidou dos filhos dos sobrinhos como filhos, cuidou de irmãos como filhos, cuidou das tuas noras como filhas, cuidou do teu marido, dos teus filhos e dos teus netos com tanto amor. O teu ofício era o cuidado. O teu ofício era amar. Sempre foi uma mulher à frente do seu tempo. Sempre correu atrás de seu sustento e deu tudo de si para cuidar de tua família. É certo que, em um mundo em decadência, você teve dificuldades. Mas tenho certeza de que tua resiliência em vida, tua forma de reagir a injustiças, tua forma de proteger mulheres, crianças e idosos e tua forma de lutar me fizeram um homem melhor. Eu sou espelho de ti e vou te carregar comigo para sempre. Vou brigar sempre que presenciar uma injustiça. Pode deixar: vou carregar o teu legado. Eu vou sempre carregar o teu senso de justiça e de amor. Obrigado por tanto, obrigado por me ensinar isso, por me ensinar o que é amor e o que é a vida. Obrigado por me ensinar a cuidar dos outros, a olhar para os outros e a não perder a ternura, mesmo com todas as dificuldades. Obrigado por me ensinar também a ser perdão. A senhora sempre foi tão sábia, minha mãe. Sempre me ensinou tanto. Desde pequenininho, eu sofria por antecipação ao pensar nesse momento de partida. Lembro de quando eu te observava dormir e conferia tua respiração. Eu nunca soltei tua mão. Fiquei contigo até o último suspiro, o último sopro de vida, o último bater do teu coração. Num universo em que retas levam a outros planos, vivi as tuas últimas linhas curvas, tentei não perder o encanto. Descanse em paz, maminha.

Matheus Matos

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Poema é agora

Estou morando no perigo,
cansando de viver no cansaço,
vivendo, muitas vezes, de embaraço,
de um aperto inconsequente no peito
e só pensando em viver direito.

Eu pego na mão do inimigo,
perdi do amigo o abrigo,
não vejo mais aquele sujeito.

Não vejo o tempo passando,
pareço um relógio quebrando,
O tempo carrega defeitos;
carrego lapsos comigo.

Tenho muitos eus,
e esse nem é o perigo.
Nasci desse jeito;
a vida não é ser perfeito.

O perigo,
o problema,
é esse eu que grita agora,
é esse eu que canta agora,
é esse eu que aflora

quando se sufoca,
acende um alerta,
bate à porta,
falando comigo:

Poema é agora,
obrigatório.
Poema é abrigo
e conforta.
Seu eu-poema é o sentido.
 
Matheus Matos

quarta-feira, 22 de julho de 2026

a vida é curta pra quem ama

a vida é curta
curta como um miado
e todos nós estamos fadados
às despedidas

a vida é curta
e o barco sempre está de saída

a medida de amor que não se acaba
era teu olhar
todo dia, na janela,
você me pedia,
e eu te pegava no colo.
Você só queria estar lá,
sendo amado.

eu era tua paisagem,
tu, minha certeza de não estar só.
Eu sempre te ouvia voar
para o meu colo, de um pulo só.

eu tocava em teu nariz molhado,
eu no teu cheiro,
teu cheiro amado,
e em tuas canções de ninar.

e todas as vezes eu me perdia
em teus olhares estelares,
transportando-me para lugares
onde eu só podia te achar.

eu mordia tua orelha
e beijava teu pescoço.
Eu amava o teu cheiro,
o teu pelo no meu rosto.
Mas eu sei:

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama

eu já entendia teus sinais.
Você me pedia atenção:
um toque no rosto,
"eu quero ir pro chão";
um toque suave
com aquela esponjinha,
e eu já sabia,
eu já te lia.
Era hora de ir pra cama.
Eu era tua nave.

você queria cantar,
e eu sempre te ouvia
até dormir.
E hoje já não sei como fazer,
mas eu sei que

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama

eu tocava em teu nariz molhado.
Eu sei que você soube o tanto que foi amado.

eu vou ficar aqui,
eu vou tentar dormir,
e eu sei:

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama 

Matheus Matos

terça-feira, 21 de julho de 2026

Tchau, meu filho.

 


Poucas dores em minha vida foram tão intensas quanto esta, e há tempos eu me preparava para essa despedida. Desde o início, eu sabia que você tinha vindo com essa missão: de amor, de companheirismo, mas, acima de tudo, de me ensinar que a vida tem um ciclo. Eu te conhecia em cada olhar e em cada miado. Eu sempre sabia quando você queria atenção, quando queria passear, quando estava com fome, quando estava com dor. E, em todos esses momentos, eu consegui te ajudar. Mas o tempo da vida chegou para te levar, e eu fiquei de mãos atadas. Desde a sua chegada, havia uma partida programada. E, mesmo tendo pensado tanto sobre isso durante todo esse tempo, hoje eu sinto uma dor imensa. Eu te dei todo o amor que pude. Desculpe pelas vezes em que o trabalho tomou o meu tempo e nós não pudemos passear. Obrigado por ficar na janela comigo em todas as noites, quentes ou frias, e por me acompanhar em tantas reuniões, como um companheiro inseparável. Você preencheu um vazio em minha vida que eu nem sabia que existia. Hoje eu quero celebrar a sua vida. Porque o que você me ensinou desde o primeiro dia foi o amor. Nós te adotamos, e você estava quietinho. Mas, ainda no caminho para casa, já mostrou a que veio. Você chegou mandando em tudo, rolando no chão, esfregando-se nas paredes, como se dissesse: "Vocês demoraram para me buscar." A casa já era sua. E nós já éramos seus, meu filho. Na primeira noite, você chorou até encontrar consolo dormindo sobre o meu peito, selando o nosso laço mais bonito. Eu aprendi muito com você. Aprendi que a vida mora nos pequenos momentos. E você esteve presente em todos eles. Com você, aprendi a ser seu doutor. Dormi no chão ao seu lado durante aquelas primeiras crises de bexiga. Aprendi a despertar com os menores ruídos, sempre atento caso estivéssemos diante de mais uma emergência. Com você, descobri que passear também era coisa de gato. Todos se surpreendiam ao ver um gato de coleira. E você amava nossas caminhadas todas as noites, encontrar outros gatos, cheirar o mundo, descobrir caminhos e desbravar novos territórios. Você chegou de um jeito simples, e não houve um único dia em que eu não enxergasse amor nos seus olhos. Obrigado por isso. Você é um pedacinho de mim que vai embora hoje. De um jeito rápido, embora eu sempre soubesse que a despedida fazia parte do nosso encontro. Hoje é o primeiro dia da sua partida.  E eu não vou me esquecer de você até o dia da minha.

domingo, 21 de junho de 2026

janela

Atrás dessa janela fria,
onde jazia minha alma,
havia a vista daquela lua minguante.

Atrás dessa janela,
passa um tempo,
imperceptível,
embora eterno.

Sinto a noite fria na minha espinha
e na ponta dos meus dedos,
neste inverno.

Astros alinhados
na imensidão do nada,
e eu aqui, só. 

Matheus Matos

sábado, 6 de junho de 2026

Incompleto II

Madrugadas cibernéticas geladas,
e o meu mundo se mudou daqui.

O que é bom está comigo.
Não espero mais o amor pelos dígitos;
ele agora está em mim.
Não me afogo em lembranças;
elas me trazem a paz.
Nem estou mais só;
ela está aqui.
Tudo o que me falta
é o que não posso dar.
Por isso, ainda sou incompleto.

Algumas coisas eu já aprendi:

As pessoas somem da sua vida
e, se você deixar,
elas se perdem.

Na vida, tudo é efêmero,
principalmente as paixões.
As paixões
são relógios de areia.

As amizades?
Ah...

São diamantes
que não precisam ser lapidados.
As pedras brutas
é que são raras.

Madrugadas cibernéticas geladas,
e agora meu mundo é aqui,
ao lado dela,
ao lado deles.

E isso é bom,
e isso é abrigo.
E alimento o amor pelos dígitos,
e não existe distância capaz
de abalar esse nó.

Também me falta o que não posso amar,
e este é o mal do mundo que me faz incompleto.

Algumas coisas eu já aprendi.

Somos difíceis nas coisas elementares,
simples demais nas importâncias,
e irracionais com paixões,
amores,
sentimentos.

As pessoas somem da sua vida
e, se você deixar,
elas se perdem.

Na vida, tudo é efêmero,
principalmente as paixões.
As paixões
são relógios de areia.

As amizades?
Ah...

São diamantes
que não precisam ser lapidados.
As pedras brutas
é que são raras.

Matheus Matos

quarta-feira, 3 de junho de 2026

euforia

 Correu atrás do impossível.

A vida dela foi feita do caos,
quebra-cabeças de peças perdidas,
cheia de buracos que fizeram sua vida.

A falta já foi uma angústia;
fazer falta, também.

A saudade era sua droga mais forte:
a saudade de ter alguém,
de sentir o coração bater forte,
a saudade do abraço materno,
do amigo ausente e eterno
e das pessoas que fazem da vida uma sorte.

No fim, eu sempre contava uma bobagem,
e ela fingia escutar.

Amores eternos são pra quem não desistiu de lutar.

Matheus Matos

sexta-feira, 29 de maio de 2026

eu-poema

É que eu vivo morando no perigo,
cansando de viver no cansaço,
vivendo, muitas vezes, de embaraço,
de um aperto inconsequente no peito
e só pensando em viver direito.

Eu pego na mão do inimigo,
perdi do amigo o abrigo,
não vejo o tempo passando direito,
carrego lapsos comigo.

Tenho muitos eus,
e esse nem é o perigo.
É esse eu que tu lês agora:
quando se sufoca,
acende um alerta,
bate na porta,
gritando comigo:

Poema é obrigatório.
Poema é abrigo
e conforta.
O eu-poema é o sentido.

Matheus Matos


quarta-feira, 11 de março de 2026

Sobre amigos

certo dia,
como num estalo,
percebi minha existência.

acordei,
e eles estavam lá.

sabendo de mim,
olhando para dentro,

o que vi
não era só eu —
eu tinha muito mais.

eu era eles,
eles eram eu,
num colapso de vidas.

percebi a importância
da permanência.

desde esse dia,
vivo somando existências.

Matheus Matos
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

21

Hoje é 21 e eu sigo lembrando.
Você foi embora, foi tão cedo.
E a gente vive chorando em segredo
a tua despedida.

Eu te vi partir como quem vira uma estrela,
e vi uma centelha prestes a iluminar todo o mundo.
Você foi embora e eu sigo tentando
não esquecer o teu mundo.

Hoje é 21 e eu queria um poema feliz.
Eu queria só poder apertar teu nariz,
acordar desse sonho ruim
e brotar na tua festa,
dar um beijo em tua testa,
mas tudo que tenho é essa cicatriz
e essa rima indigesta.

Eu não tenho a tua música,
eu não tenho a tua arte,
eu não tenho a tua voz,
mas eu sei: faz parte.
Tudo que eu canto é só saudade.

Hoje é 21 e eu sigo lembrando, todo ano.
Você foi embora cedo, e a gente segue aqui, chorando em segredo.
E só o que me resta pra me conectar contigo
é essa memória deste teu amigo
neste poema contido.

Pois a poesia eu sei que segue amando,
e eu sigo aqui te eternizando em poesia.
Eu sei que você virou um pontinho no céu infinito.
Eu olho pro céu, tantas luzes numa noite escura,
e vejo quanto é bonito.

Eu lembro dos nossos momentos, dos nossos amigos.
Lembro daquele dia, todo mundo em euforia:
nós pulávamos, nós cantávamos, tu sorrias.
Tenho essa cena gravada no peito.
Tu estavas lá. Todos eles estavam lá.
Todos nós estávamos lá.

Sigo tentando transcender o poema,
conectar as almas,
ver se vale a pena continuar.

O mundo é tão mais triste sem a tua presença.
Eu grito daqui do chão, eu grito pro céu, e quem sabe.

Eu te vi pequena e te vi partindo.
E continuo tentando entender a escolha aleatória do universo.
Meu único consolo é poder viajar no tempo contigo,
com nossos amigos, aqui nesses versos.

Eu sigo tentando e me lembro da tua última dança,
com uma lágrima em lembrança.
Mas lembro também de outras danças.
Eu sigo lembrando  
e a poeira levantando.

Hoje é 21.
E eu queria um poema feliz. 
Eu queria só poder apertar teu nariz,
acordar desse sonho ruim
e brotar na tua festa
dar um beijo em tua testa
mas tudo que tenho é essa cicatriz
e essa rima indigesta.

Eu não tenho a tua música,  
eu não tenho a tua arte,  
eu não tenho a tua voz,  
mas eu sei fazer parte  
deste poema.

Matheus Matos

sábado, 17 de janeiro de 2026

Luta vã

Todo dia acordo cedo,
olho a estrada da vida
e me dou alguns luxos:
certos venenos eu não bebo.

Não vale a morte lenta,
uma luta vã.
Quem guarda consigo tormentas
já perdeu a guerra,
vai ganhar o divã.

Certos venenos eu não bebo,
sejam eles segredos
ou escondidos na maçã. 

Matheus Matos

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Enigmas

Os poemas guardam segredos
das nossas almas.
Enigmas a serem descobertos.
Pra pensar com calma.

Cada rima, uma sina.
O amor que fascina,
um trauma
ou o poema que liberta.

Um poema é uma porta entreaberta
para o labirinto.
Quem encontra o poeta
desvenda a si mesmo,
distinto.

Instinto foi ler o poema,
faminto.

Matheus Matos

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Fotografia

Deixa teu sorriso ser meu guia;
que a luz das estrelas não tem tua alma
nem a magia
e a calma
da minha vida
quando estou contigo.

Vem agora, que sou teu amigo,
com tua dança desse momento exato.
O teu cheiro no meu,
teu corpo colado,
minha alegria
e meu abrigo.

Eu olho pra frente
quando olho pra ti
e vejo o que ainda não existe.
Eu vejo o mundo diferente.
Vejo um amor presente.

Eu vejo a calma dos amores que ainda não tive.
Vejo furacão sendo brisa.
Vejo você em matizes
do que ando descobrindo ser amor.

Vem,
deixa teu sorriso ser meu guia.
Te dou meu bom dia,
te dou minha alegria
e minha melodia,
às vezes um pouquinho de mau humor.

É que a vida não precisa ser mais perfeita
pra estar contigo.
Pra estar contigo,
só preciso saber se há amor.

Matheus Matos