Há pessoas que passam por nossas vidas, e a gente nem percebe o quanto elas serão importantes. Há momentos pelos quais a gente passa na vida e para os quais nunca estará pronto. Os encontros, às vezes, servem para nos ensinar o valor das conexões, para nos mostrar o quanto somos humanos e frágeis, para mostrar que não estamos sós neste mundo de vastidão. Encontrar pessoas como quem cultiva o alimento da alma, talvez esse seja o propósito.
Não sei por quê. Talvez eu tenha me conectado com todos vocês durante os dias em que fiquei aí porque minha companheira, o amor da minha vida, é essa pessoa do cuidado, e eu vejo o quanto isso é importante. Eu tentei dar importância às atividades de vocês, tentei aprender, acolher suas dores, porque todos nós as temos, e ser abrigo quando o abrigo também me era oferecido.
Talvez por isso eu tenha me sentido tão em casa quando estive aí, na UTI 1 do Hospital Universitário Professor Edgar Santos.
Eu sei que todos nós temos nossas virtudes e nossos defeitos. Mas, em um ambiente em que um erro pode custar uma vida, admiro muito o empenho de todos vocês em não errar. Imagino como deve ser difícil ver vidas passarem por entre os dedos tantas vezes, como quem tenta dar forma à água com as mãos. Muitas vezes, a vida simplesmente quer escorrer. E me admira a capacidade que vocês precisam ter de se recompor. Imagino também o quanto deve ser difícil tentar não se conectar demais com as pessoas para evitar sofrer tanto. Afinal, não somos robôs, e muitos sentimentos embaralhados podem nos adoecer.
Eu fiz um estágio de vida com todos vocês. Com começo, meio e fim. Um fim amargo, eu sei. Mas vocês me ajudaram a atravessar essas etapas de uma maneira muito mais leve. E eu só queria agradecer a todo mundo, de todas as esferas do funcionamento da UTI. Quero registrar o quanto fui recebido por pessoas humanas e o quanto recebi olhares e palavras de afago. É difícil, para um poeta, professor e cientista, viver tantas emoções, conviver com tantas informações e ver tanto conhecimento sendo trocado sem se sobrecarregar. Vocês fizeram dessa passagem uma viagem de bem-estar, brincadeiras e tranquilidade. Eu, sinceramente, não tenho palavras para agradecer. E, se houve algo bom nessa experiência, esse algo bom foram vocês.
Eu conheci mineiras, piauienses/maranhenses, cearenses, baianos, brasileiros. Conheci o lado humano de vocês justamente no momento mais frágil que alguém pode viver. Admirava toda a organização, a sincronia e a colaboração entre vocês. Eu sei que isso faz parte da rotina e que vocês precisam dominar tudo isso para exercer esse ofício, mas não é apenas sobre isso.
É sobre competências complementares e humanizadas. É sobre olhar para o paciente com carinho, mesmo depois de plantões nada humanos. É sobre a forma como olharam para minha mãe e viram nela não apenas a minha mãe, mas também seus próprios filhos, seu marido, sua família. É projetar sobre si a dor do outro para tentar diminuir o sofrimento dele.
Eu não sei como agradecer. Chocolates não seriam capazes. Minhas palavras são incapazes. Eu não tenho poesia para este momento. Aqui, sou apenas carne e ossos, sem fantasia, com os olhos de quem perdeu a pessoa mais importante da vida, mas que carrega uma dívida de gratidão com esta equipe singular.
É muito provável que eu não tenha acompanhado todos os rodízios, embora tenha ficado mais de duas semanas com vocês. É muito provável que eu não consiga me lembrar do nome de todos que passaram por mim. Eu tenho esse péssimo costume de esquecer nomes, e agora vocês entendem por que eu perguntava tantas vezes os nomes de vocês.
Obrigado às meninas da recepção. Obrigado pelos sorrisos de sempre quando eu chegava. O pessoal da limpeza também sempre me recebia com carinho, principalmente a senhora que esteve lá comigo mais vezes. Ela sempre me via e deseja melhoras pra minha mãe. Admirava o carinho dos filhos com a mãe, como se fosse a mãe que recebesse carinho. Saiba que suas palavras sempre foram recebidas com muita esperança e afago.
Me lembro da gigante Érica, que, em todos os rodízios em que ficou no leito da minha mãe, teve uma paciência, uma atenção e um carinho sem igual com ela. Além, é claro, de estar com o treino em dia para os desafios do levantamento de peso da UTI. Não me esqueço do carinho sem igual de Heloísa com minha mãe e de seu semblante abatido com a partida dela. Helô, obrigado por tudo. Eu lhe disse isso. Você fez tudo ser mais leve.
Também não poderia deixar de registrar um momento tão bonito de comunhão entre Vânia e minha mãe. Obrigado, Vânia, pelas palavras de conforto. Tenho certeza de que ela se sentiu mais forte para partir depois da conversa de vocês. Eu pude ver uma mudança nítida no semblante de minha mãe, um semblante de paz, quando ela descobriu que estava sendo cuidada por uma irmã de sua igreja. Saiba que o velório dela foi na Igreja Adventista e que fizeram também um momento mais tranquilo e bonito, apesar de tudo.
Lu, Kel, Alicia e Robério: obrigado por tudo. Ver vocês cuidando dela aliviava o meu dia. Era a certeza de que eu poderia ficar em paz. Obrigado pelas conversas, pelos sorrisos e por atenderem aos meus insistentes pedidos. Obrigado por buscarem as gazes sempre que eu pedia. Tenham certeza de que vocês são profissionais competentes e de que a função de vocês é, sem dúvida, uma das mais importantes nesse ambiente. Vocês são o verdadeiro cuidado e o verdadeiro contato com os pacientes. No momento de maior vulnerabilidade, vocês carregam a vida deles nas mãos. Parabéns por exercerem uma profissão tão digna.
Minhas amigas e meus amigos, enfermeiras e enfermeiros: Luciana, a Lu; Ceci; Alexandre; Sidney; Érica; Laís; Carlos Eduardo; Manu; e Davi. Vocês são anjos. Anjos que carregam o fardo do cuidado. São portadores da cura. Nunca se esqueçam disso. É por meio de vocês que o paciente é guiado para a melhora e para a cura. E isso é tão bonito. É um poder tremendo. Obrigado por tudo. Obrigado por me tratarem tão bem e, acima de tudo, por me aceitarem. Eu sei que não fui tão simples. Com o tempo, os sorrisos tornaram tudo mais fácil. Obrigado pela forma sem igual que trataram minha mãe.
Há algo muito bonito em um hospital universitário: o ensino. Como professor, eu não poderia deixar de registrar todo o aspecto formativo da UTI, em todas as áreas: para enfermeiros, médicos, técnicos, profissionais administrativos, para todos. Parabéns aos professores que carregam essa missão. Parabéns à equipe médica. Parabéns ao SUS e às universidades públicas. Que todos nós possamos usufruir disso como cidadãos, tanto aqueles que aprendem quanto aqueles que recebem o cuidado. O SUS é uma das armas mais bonitas no combate à desigualdade neste país.
Não poderia deixar de registrar o atendimento da equipe médica: a voz calma e doce de Michele, a tranquilidade e a paz de André, as analogias e brincadeiras de Lício, a amizade e a curiosidade de Simone, a poesia e a música de Leonardo. Muitas vezes, vocês são obrigados a transmitir tranquilidade depois de um dia pesado de trabalho e têm a árdua missão de dar notícias boas ou ruins, sobretudo as ruins. Precisam se lembrar dos detalhes de vários pacientes, suportar perguntas sem limites e enfrentar questões de respostas impossíveis. Obrigado pela paciência. Obrigado por respeitarem nossas ânsias. Obrigado, sobretudo, pela conexão humana.
Obrigado, Leo, por me apresentar sua poesia, sua música e por trocar figurinhas comigo. Obrigado, Simone, pelas discussões científicas, por me ouvir e por dar atenção aos meus ruídos. Espero que vocês nunca deixem esse lado humano da medicina acabar. Desejo também todo o sucesso aos residentes, Will e Ana Luísa, e aos estudantes de medicina com quem tive contato, Victor e Gibran. Que seus supervisores ensinem a vocês, sobretudo, a olhar nos olhos de quem atendem, da mesma forma como olharam nos meus e nos de minha família.
Obrigado por tudo, pessoal.
Matheus Matos

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