Eis minha poesia. Toma, agora é tua!

quarta-feira, 22 de julho de 2026

a vida é curta pra quem ama

a vida é curta
curta como um miado
e todos nós estamos fadados
às despedidas

a vida é curta
e o barco sempre está de saída

a medida de amor que não se acaba
era teu olhar
todo dia, na janela,
você me pedia,
e eu te pegava no colo.
Você só queria estar lá,
sendo amado.

eu era tua paisagem,
tu, minha certeza de não estar só.
Eu sempre te ouvia voar
para o meu colo, de um pulo só.

eu tocava em teu nariz molhado,
eu no teu cheiro,
teu cheiro amado,
e em tuas canções de ninar.

e todas as vezes eu me perdia
em teus olhares estelares,
transportando-me para lugares
onde eu só podia te achar.

eu mordia tua orelha
e beijava teu pescoço.
Eu amava o teu cheiro,
o teu pelo no meu rosto.
Mas eu sei:

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama

eu já entendia teus sinais.
Você me pedia atenção:
um toque no rosto,
"eu quero ir pro chão";
um toque suave
com aquela esponjinha,
e eu já sabia,
eu já te lia.
Era hora de ir pra cama.
Eu era tua nave.

você queria cantar,
e eu sempre te ouvia
até dormir.
E hoje já não sei como fazer,
mas eu sei que

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama

eu tocava em teu nariz molhado.
Eu sei que você soube o tanto que foi amado.

eu vou ficar aqui,
eu vou tentar dormir,
e eu sei:

a vida é curta pra quem ama
a vida é curta pra quem ama 

Matheus Matos

terça-feira, 21 de julho de 2026

Tchau, meu filho.

 


Poucas dores em minha vida foram tão intensas quanto esta, e há tempos eu me preparava para essa despedida. Desde o início, eu sabia que você tinha vindo com essa missão: de amor, de companheirismo, mas, acima de tudo, de me ensinar que a vida tem um ciclo. Eu te conhecia em cada olhar e em cada miado. Eu sempre sabia quando você queria atenção, quando queria passear, quando estava com fome, quando estava com dor. E, em todos esses momentos, eu consegui te ajudar. Mas o tempo da vida chegou para te levar, e eu fiquei de mãos atadas. Desde a sua chegada, havia uma partida programada. E, mesmo tendo pensado tanto sobre isso durante todo esse tempo, hoje eu sinto uma dor imensa. Eu te dei todo o amor que pude. Desculpe pelas vezes em que o trabalho tomou o meu tempo e nós não pudemos passear. Obrigado por ficar na janela comigo em todas as noites, quentes ou frias, e por me acompanhar em tantas reuniões, como um companheiro inseparável. Você preencheu um vazio em minha vida que eu nem sabia que existia. Hoje eu quero celebrar a sua vida. Porque o que você me ensinou desde o primeiro dia foi o amor. Nós te adotamos, e você estava quietinho. Mas, ainda no caminho para casa, já mostrou a que veio. Você chegou mandando em tudo, rolando no chão, esfregando-se nas paredes, como se dissesse: "Vocês demoraram para me buscar." A casa já era sua. E nós já éramos seus, meu filho. Na primeira noite, você chorou até encontrar consolo dormindo sobre o meu peito, selando o nosso laço mais bonito. Eu aprendi muito com você. Aprendi que a vida mora nos pequenos momentos. E você esteve presente em todos eles. Com você, aprendi a ser seu doutor. Dormi no chão ao seu lado durante aquelas primeiras crises de bexiga. Aprendi a despertar com os menores ruídos, sempre atento caso estivéssemos diante de mais uma emergência. Com você, descobri que passear também era coisa de gato. Todos se surpreendiam ao ver um gato de coleira. E você amava nossas caminhadas todas as noites, encontrar outros gatos, cheirar o mundo, descobrir caminhos e desbravar novos territórios. Você chegou de um jeito simples, e não houve um único dia em que eu não enxergasse amor nos seus olhos. Obrigado por isso. Você é um pedacinho de mim que vai embora hoje. De um jeito rápido, embora eu sempre soubesse que a despedida fazia parte do nosso encontro. Hoje é o primeiro dia da sua partida.  E eu não vou me esquecer de você até o dia da minha.

domingo, 21 de junho de 2026

janela

Atrás dessa janela fria,
onde jazia minha alma,
havia a vista daquela lua minguante.

Atrás dessa janela,
passa um tempo,
imperceptível,
embora eterno.

Sinto a noite fria na minha espinha
e na ponta dos meus dedos,
neste inverno.

Astros alinhados
na imensidão do nada,
e eu aqui, só. 

Matheus Matos

sábado, 6 de junho de 2026

Incompleto II

Madrugadas cibernéticas geladas,
e o meu mundo se mudou daqui.

O que é bom está comigo.
Não espero mais o amor pelos dígitos;
ele agora está em mim.
Não me afogo em lembranças;
elas me trazem a paz.
Nem estou mais só;
ela está aqui.
Tudo o que me falta
é o que não posso dar.
Por isso, ainda sou incompleto.

Algumas coisas eu já aprendi:

As pessoas somem da sua vida
e, se você deixar,
elas se perdem.

Na vida, tudo é efêmero,
principalmente as paixões.
As paixões
são relógios de areia.

As amizades?
Ah...

São diamantes
que não precisam ser lapidados.
As pedras brutas
é que são raras.

Madrugadas cibernéticas geladas,
e agora meu mundo é aqui,
ao lado dela,
ao lado deles.

E isso é bom,
e isso é abrigo.
E alimento o amor pelos dígitos,
e não existe distância capaz
de abalar esse nó.

Também me falta o que não posso amar,
e este é o mal do mundo que me faz incompleto.

Algumas coisas eu já aprendi.

Somos difíceis nas coisas elementares,
simples demais nas importâncias,
e irracionais com paixões,
amores,
sentimentos.

As pessoas somem da sua vida
e, se você deixar,
elas se perdem.

Na vida, tudo é efêmero,
principalmente as paixões.
As paixões
são relógios de areia.

As amizades?
Ah...

São diamantes
que não precisam ser lapidados.
As pedras brutas
é que são raras.

Matheus Matos

quarta-feira, 3 de junho de 2026

euforia

 Correu atrás do impossível.

A vida dela foi feita do caos,
quebra-cabeças de peças perdidas,
cheia de buracos que fizeram sua vida.

A falta já foi uma angústia;
fazer falta, também.

A saudade era sua droga mais forte:
a saudade de ter alguém,
de sentir o coração bater forte,
a saudade do abraço materno,
do amigo ausente e eterno
e das pessoas que fazem da vida uma sorte.

No fim, eu sempre contava uma bobagem,
e ela fingia escutar.

Amores eternos são pra quem não desistiu de lutar.

Matheus Matos

sexta-feira, 29 de maio de 2026

eu-poema

É que eu vivo morando no perigo,
cansando de viver no cansaço,
vivendo, muitas vezes, de embaraço,
de um aperto inconsequente no peito
e só pensando em viver direito.

Eu pego na mão do inimigo,
perdi do amigo o abrigo,
não vejo o tempo passando direito,
carrego lapsos comigo.

Tenho muitos eus,
e esse nem é o perigo.
É esse eu que tu lês agora:
quando se sufoca,
acende um alerta,
bate na porta,
gritando comigo:

Poema é obrigatório.
Poema é abrigo
e conforta.
O eu-poema é o sentido.

Matheus Matos


quarta-feira, 11 de março de 2026

Sobre amigos

certo dia,
como num estalo,
percebi minha existência.

acordei,
e eles estavam lá.

sabendo de mim,
olhando para dentro,

o que vi
não era só eu —
eu tinha muito mais.

eu era eles,
eles eram eu,
num colapso de vidas.

percebi a importância
da permanência.

desde esse dia,
vivo somando existências.

Matheus Matos
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

21

Hoje é 21 e eu sigo lembrando.
Você foi embora, foi tão cedo.
E a gente vive chorando em segredo
a tua despedida.

Eu te vi partir como quem vira uma estrela,
e vi uma centelha prestes a iluminar todo o mundo.
Você foi embora e eu sigo tentando
não esquecer o teu mundo.

Hoje é 21 e eu queria um poema feliz.
Eu queria só poder apertar teu nariz,
acordar desse sonho ruim
e brotar na tua festa,
dar um beijo em tua testa,
mas tudo que tenho é essa cicatriz
e essa rima indigesta.

Eu não tenho a tua música,
eu não tenho a tua arte,
eu não tenho a tua voz,
mas eu sei: faz parte.
Tudo que eu canto é só saudade.

Hoje é 21 e eu sigo lembrando, todo ano.
Você foi embora cedo, e a gente segue aqui, chorando em segredo.
E só o que me resta pra me conectar contigo
é essa memória deste teu amigo
neste poema contido.

Pois a poesia eu sei que segue amando,
e eu sigo aqui te eternizando em poesia.
Eu sei que você virou um pontinho no céu infinito.
Eu olho pro céu, tantas luzes numa noite escura,
e vejo quanto é bonito.

Eu lembro dos nossos momentos, dos nossos amigos.
Lembro daquele dia, todo mundo em euforia:
nós pulávamos, nós cantávamos, tu sorrias.
Tenho essa cena gravada no peito.
Tu estavas lá. Todos eles estavam lá.
Todos nós estávamos lá.

Sigo tentando transcender o poema,
conectar as almas,
ver se vale a pena continuar.

O mundo é tão mais triste sem a tua presença.
Eu grito daqui do chão, eu grito pro céu, e quem sabe.

Eu te vi pequena e te vi partindo.
E continuo tentando entender a escolha aleatória do universo.
Meu único consolo é poder viajar no tempo contigo,
com nossos amigos, aqui nesses versos.

Eu sigo tentando e me lembro da tua última dança,
com uma lágrima em lembrança.
Mas lembro também de outras danças.
Eu sigo lembrando  
e a poeira levantando.

Hoje é 21.
E eu queria um poema feliz. 
Eu queria só poder apertar teu nariz,
acordar desse sonho ruim
e brotar na tua festa
dar um beijo em tua testa
mas tudo que tenho é essa cicatriz
e essa rima indigesta.

Eu não tenho a tua música,  
eu não tenho a tua arte,  
eu não tenho a tua voz,  
mas eu sei fazer parte  
deste poema.

Matheus Matos